Observei-o deliciada, confesso. Estava com um ar sonhador, o rapaz. Olhava para o ramo de flores, uma explosão de cor matinal, e não disfarçava o sorriso provocado, por certo, da felicidade que os pensamentos que o invadiam lhe provocava. Depois reparava que vários olhares transeuntes o fitavam, tal como eu por delícia e curiosidade, e tentava colocar um ar sério. Mas não o mantinha muito tempo. Bastava olhar para ele uns segundos e era impossível não reparar na sua expressão, é um homem apaixonado, se calhar um homem que nesta altura consegue dizer "amo-te".
Questionei-me se manterá aquele ar ao entregar as flores à rapariga. Questionei-me se a deixará perceber o mesmo ar radiante que lhe salpicou o rosto durante aquela viagem de metro, o que deixou ver a tantos estranhos. Questionei-me depois se terá a rapariga, a que recebeu as flores, percebido o que significa para o rapaz, se lhe dará o mesmo valor, a ele e ao gesto.
E ele estava tão radiante quanto nervoso, foi isso que me chamou à atenção, isso e a explosão de cores do ramo de flores numa manhã como a de hoje, que acordou gelada. E por momentos tive inveja da rapariga, por ter assistido ao ar sonhador e radiante do rapaz. Um que ela perdeu mas que espero que tenha agarrado ao mesmo tempo que o ramo de flores.