Um destes dias um conhecido perguntou-me se o meu ninho era acolhedor. Não lhe soube responder, nunca tinha pensado nisso.
Saí de casa dos meus pais com 17 anos. Vim para Lisboa estudar e trabalhar. Fui viver sozinha, numa casa só para mim durante um ano. Nunca gostei daquela casa, nunca lhe chamei lar. Sempre que podia, e eram muitas as vezes contando que do meu curso era a única caloira de fora de Lisboa, enchia a casa de gente. Caloiros, veteranos, pessoal do trabalho. Começou a ser a casa de encontro de amigos, mas quando lá estava sozinha, e não sou nada de solidões, nunca olhei para as paredes como minhas, nunca me identifiquei com elas. Os restantes anos de faculdade foram passados a partilhar casa, nunca foram um lar. Anos depois fui viver com um namorado. Entre várias casas alugadas nenhuma deles me fez sentir que ali pertencia. Depois comprei casa, tive um ninho. Foi o escolher, o mobilar, o decorar, o ter as ideias, o dar aquele toque absolutamente pessoal. O que eu adoro aquela casa. Tudo tinha um sentido, era ali que me via por muitos anos. As paredes virgens de memórias começaram a guardar segredos e sonhos. Projectos e histórias, a manter calor, a guardar imagens e segredos. Sussurros. A albergar familiares uma vez ou outra. Teve um jantar de Natal com a família toda. Fazia sentido. Tinha pormenor, traços de personalidade de duas pessoas. Tinha um propósito. Podia ter tido crianças a correr de um lado para o outro. Podia ter tido um escritório transformado numa outra coisa qualquer. Tinha recordações de viagens pelas paredes. Fazia sentido. Foi um ninho. Talvez tenha sido um lar.
Tal como os passarocos, quando têm por sobrevivência que aprender a voar, caí do ninho.
Agora, não acho que tenha um ninho, um lar. O meu quarto na casa dos meus pais, onde só vou de duas em duas ou três em três semanas, também já não é o meu. Passou a ter uma mobília de casal, demasiado adulta. Já não tem a escrevaninha, nem aquelas prateleiras que exibiam as minhas taças e troféus do futebol e do atletismo. Já não tem as minhas tralhas, foram encaixotadas. Já não têm uma colcha divertida, tem uma enfadonha em tons pastel, tem tapetes às riscas, tem uns creme que a minha mãe faz questão de não me deixar pisar calçada. Já não tem junto à janela uma escada de ferro que ligava ao sótão. Já não posso fugir pela janela a meio da noite para me sentar lá a fumar um cigarro e a olhar para as estrelas. A ouvir os grilos e as cigarras, os sapos, os gatos, os cães. Mudaram-me de quarto também. Pronto. Não tenho ninho.