Eu e o meu irmão não temos uma única parecença. Nem traços físicos nem de personalidade. Nem objectivos, gostos, sonhos. Nada. Temos em comum o sangue que nos corre nas veias. Há anos que se vou a algum lado com ele as pessoas acham que somos namorados, que é impossível sermos irmãos. Os amigos dele acham que sou o novo engate dele. Ele tem o cabelo muito preto, eu tenho-o muito loiro. Ele tem os olhos num castanho muito escuro, os meus são verdes com uns riscos azul/cinza. Ele tem lábios carnudos (cabrão saiu à mãe) e eu uso gloss para fazer esse efeito. Ele tem pele muito morena, eu sou branquela de sardas. Ele é muito alto, eu fiquei pelo 1.71m. É como vos digo, "cara de um cú do outro".
Ele nunca se comportou comigo como um irmão mais velho, nunca se meteu na minha vida. Patrocinou-me algumas bebedeiras e ensinou-me a fumar. Lembro-me bem desse dia. Roubámos cigarros ao pai, que entretanto já não fuma, para dar o exemplo aos filhos, ambos fumadores, e fomos para o fundo do quintal. Entre caretas e tosses lá aprendi. Vim zonza quintal acima porque a minha mãe nos começou a chamar em tom ameaçador. Por certo tínhamos feito alguma traquinice antes.
Quando começamos a ter idade para as saídas à noite e namoricos deixámos de sair juntos. Amigos diferentes, gostos diferentes, mantinha-se o nada em comum para além do sangue. Muitas vezes deu o meu número de telemóvel a gajos em troca de duas minis. Um palerma. Em casa andávamos sempre à pancada, era a única brincadeira comum.
Eu passava a vida a jogar à bola e ela a desmontar aparelhos eléctricos. Nunca deu um pontapé numa bola, o gajo. Agora partilhamos o gosto pelo snooker e pelos matraquilhos.
O meu irmão é um tipo frio, não dá beijinhos a ninguém e nunca o vi a abraçar um ser humano. Não é que ele não sinta, apenas não gosta de o mostrar. Na última vez que veio a Portugal veio diferente. Sorriso rasgado, a falar de amor e almas gémeas. Tonto.
Apaixonado. Pela primeira vez perguntou-se como é que eu estava, se já tinha superado a separação, se saia com alguém, se fazia sexo com alguém. "Porque um dia vai aparecer alguém te te obriga a esqueceres isso tudo, alguém que vai entrar na tua vida e mudar tudo, olha para mim". Tentei acreditar, afinal ele estava assim, feliz, sentia-se completo.
Nesses dias em que cá esteve fomos beber café duas ou três vezes e claro, jogar snooker. Vínhamos para casa, numa das vezes, e ligou-lhe um gajo qualquer, que depois me explicou que também vive em Paris e que lá são vizinhos. Como estava a conduzir colocou em alta voz:
Mano - Então pá, estás bom? Também andas por cá?
Gajo qualquer - sim sim. Ouve lá! Quem é a princesa?
Mano - Qual princesa?
Gajo - A que levas aí no carro.
Mano -
É a minha irmã. Gajo - sim sim, deve ser irmã deve...
Mano - É a minha irmã não sejas cromo. Diz lá o que queres...
(...)
Dias depois o meu irmão voltou para Paris, apaixonado. Dias depois a minha mãe ligou-me, num pranto.
"O teu irmão está mal, a namorada deixou-o. Esteve a chorar ao telefone e tudo. Parece que um tipo foi dizer à namorada dele que ele tinha andado com uma loira dentro do carro nos dias em que cá esteve, quando o avô morreu. Ele tentou explicar que era a irmã mas ela não quis saber".
Bem, na minha opinião, se a namorada não acreditou que eu fosse a irmã é porque já o queria deixar por outro qualquer motivo. É verdade que não somos parecidos, mas daí a ela deixá-lo insistindo que eu seria uma "outra" qualquer parece-me exagero.
O mano chega amanhã a Portugal. Bora lá beber minis para esquecer o desgosto dele, e os meus problemas e essas merdas. Bora lá mano, que a vida são dois dias.