Nunca lidei bem com idas ao hospital. Não gosto de ir ver as pessoas que gosto amarragas à cama a lutar por uma vida que já não é digna de um ser humano. Não gosto de ver um familiar entubado. Não gosto de olhos vazios. Não gosto de luvas nem máscaras nem batas e toucas. Nem do barulho do esforço na luta por respirar.
Se por um milagre ele me reconhecesse tal como sou, nunca lá chegaria ao ver-me transformada num ser prestes a ser mandado para uma sonda espacial. Estive lá 5 minutos.
Muitas vezes chateiam-me porque pareço começar desprender-me das pessoas assim que me apercebo de que elas vão morrer. É verdade. Faço-o. Não lido bem com a morte, tento começar a amorná-la para ela não me apanhar a quente. É egoísmo. Eu sei. É.
Já lidei com ela demasiadas vezes para a deixar apanhar-me ainda perto.
Depois as pessoas morrem e eu viro carrasca de mim mesma. "Devia ter estado lá mais tempo, mesmo sabendo que ele não me reconhece, está ali por estar. Devia ter-me despedido. Mesmo sabendo que o cérebro dele não reconhece o significado de palavra alguma, devia ter-lhe dito que gosto dele".
Mas sei que caso decidas partir, partes com essa certeza e que percebes porque o faço. Já agora, tenho que te contar avô, fui eu que estraguei as tuas ferramentas no sótão a tentar afiá-las. Gostava de ver as faíscas que faziam quando as encostava àquela pedra esquesita que andava à velocidade, já furiosa, do meu bracito de 8 anos a dar à manivela. Pronto, era isto.