O meu amigo do coração foi-se embora, mudou de vida, de país. Vi-o partir de lágrima no olho.
Podia dizer que ele não imagina a falta que me faz, mas sim, ele sabe. É a mesma que lhe faço a ele. Desde miúda que ouço falar em almas gémeas, se elas existirem, se as houver, ele é a minha. Conheço-o desde que me conheço a mim, crescemos juntos. Jogámos á bola, saltámos aos elástico, ficámos com nódoas negras iguais a jogar ao mata e ia-me decapitando a saltar ao alho. Fizemos lanches na "cova dos dinossauros" (um buraco no pinhal), começámos a beber alcóol juntos. Os primeiros cigarros também foram com ele, as primeiras viagens sem adultos. É um irmão, apesar de não partilharmos o mesmo sangue.
Quando me disse que ia embora senti um rasgo no peito e confesso que fui egoísta ao ponto de o tentar dissuadir de ir com a ideia para a frente. Não lhe falei um ou dois dias. Não sabia o que lhe dizer. Na noite antes de ir embora estivemos juntos, com mais um dos metralhas de infância e a noite, depois de já ter sido regada a sopa de champanghe e imperiais no Bairro, acabou num abraço a três, seis olhos a tentar segurar as lágrimas. Caíram assim que viraste costas.
Fazes-me falta.Não precisamos de falar, basta-nos olhar um para o outro. Não precisamos de máscaras, somos completamente livres, nós, sem merdas, sem julgamentos, sem receios, em todas as conversas. Usamos uma linguagem nossa que mais ninguém usaria sem a levar a mal. Nada do que fazemos, e falo nos segredos mais podres, é desconhecido ao outro. Unha com carne, irmãos do coração, irmãos por opção. Amo-te e tenho muitas saudades tuas, apesar de falarmos quase todos os dias. Faz-me falta o abraço, o xoxo, a chamada tardia "foda-se estou aborrecida(o) de tar em casa, bora ao bairro?". As gargalhadas, as confissões difíceis. As noites de "lócura", o agir sem amarras, as horas em que falamos mal da vida, dos amores, dos desamores, o sermos o diário um do outro. Fazes-me falta Dinis.