quinta-feira, 15 de outubro de 2009

A minha noite "revelação"

Sabem aquelas noites inquietas? Aquelas em que vos apetece ficar sozinhos, a pensar na vida,a tentar arranjar uma solução para outra qualquer inquietude? Aquelas, sim aquelas, em que os cigarros não são pensativos, noites perdidas a pensar e que acabam sem que possamos chegar a uma conclusão, tomar uma decisão? Pois, toda a vida tive noites dessas. Até ao dia...
Durante as últimas férias, aquelas em que fiz o cruzeiro, tive uma noite revelação (que merda de nome). Uma noite que me mudou a vida, a noite em que mudei de vida. A noite do fuck it, uma noite em que olhei para dentro de mim e me vi, realmente, lá no fundo, atolada em merdas que não interessam a ninguém. Presa com estacas do passado, do presente, por regras e amarras sem sentido.
Estavam 31 graus em alto mar, à 01h00 da manhã e decidi ir para a proa, de margarita na mão, maço de tabaco na outra. O vento batia-me com força na cara sem conseguir levar o calor. Num instante desatou a chover e o céu começou a piscar. Negro, rosa-choque, negro. Rosa, negro outra vez. Os relâmpagos sucediam-se, atropelavam-se com a pressa de rasgar o céu e na minha cabeça começavam a suceder-se mudanças. Olhei-me para dentro.
Fumei mais um cigarro, agora abrigada da chuva mas sem conseguir abandonar a proa, apenas recuei uns metros. Olhei-me para dentro outra vez. Sai da proa horas depois com uma cabeça nova. Uma cabeça sem merdas. Uma cabeça sem preconceito nenhum, uma cabeça prática. O que decidi? O que mudou?
Decidi que ia sair da minha bolha de protecção, que ia viajar sozinha, que ia conhecer pessoas novas só porque sim, que ia a um bar de jazz assim que regressasse a Lisboa, que ia dar-me. Que ia aprender a dançar tango. Que ia quebrar as regras. Que ia agarrar todas as gargalhadas que pudesse.
Voltei para dentro do barco. Dancei o twist com um velhote de 70 anos, kizomba com um puto de 15. Fiz brindes à vida com uma espanhola de 52 anos que trabalha na ONU e que me contou a vida toda. Andei a correr descalça a fugir de um segurança peruano pelo navio, de corredor em corredor, à procura do Deck 5 ímpar para ir beber cerveja de lata (acto rebelde e ilegal pois claro, nem sei como conseguiram trazer a cerveja para dentro do barco) com os crupiers do casino (por sorte não fui apanhada e eles não foram despedidos). Não contive as gargalhadas e gozei com a cara do segurança que não percebeu uma única palavra do que eu disse, quando me apanhou e me perguntou se estava perdida e o que fazia descalça àquela hora. Escondidos bebemos as cervejas, rimos, dançámos, falámos da vida. Um bando de estranhos a pisar a linha, a rir, a traçar planos, a partilhar histórias.
De volta a Lisboa mantive firme as decisões que tinha tomado, continua a ligação a essas pessoas, as novas pessoas, mantêm-se as decisões, mantém-se a cabeça vazia de merdas.
Continuam os e-mails, as piadas, os encontros relâmpago para comer pastéis de nata em Lisboa a cada vez que o barco atraca. A promessa do encontro com todos em Buenos Aires daqui a dois anos. (Pablo, é o tempo que tens para aprender a dançar o tango, é uma vergonha seres argentino e não o saberes dançar).
Tomei decisões para o futuro. Arranquei vírgulas e meti pontos finais. Coloquei-me prazos. Arrumei-me. Apaguei números de telefone, apaguei pessoas. Deixei-me de fretes, agora não sorrio a ninguém para parecer simpática, não deixo de dizer nada só para não magoar egos. Comecei a falar com pessoas que não conheço de parte nenhuma, a olhá-las nos olhos. Fui a um jantar de estranhos e conheci pessoas maravilhosas (sim, pessoal da rambóia, vocês que estão a ler contenham as lágrimas, sim?). Depois daquela noite voltei a ser eu, a que se tinha perdido há uns anos e agora se reencontrou. Tive uma noite "revelação", eu que pensava que isso só acontecia aos outros, ou em filmes.

Bem, já devem ter reparado que acabei por juntar dois posts num. Isso porque tinha prometido um "Momentos a bordo", bem cá vão fotos e tudo e tudo com legendinhas e essas fôfuras. (Não, a minha mãe não lê o meu blogue)

A foto deste episódio.


A Gravata do Pablo. Pronto, eu explico. Acho que ficava melhor na minha perna que no pescoço dele e como ele partilhava a mesma opinião...


Outra noite, a mesma gravata...Virou moda.


:)
A vista (de dia) do fim do deck 5


E vocês? Que gostavam de mudar na vossa vida?

30 comentários:

gimbras.nofuturo.com disse...

À noite, minha vista ainda mais cansada fica e meus olhos descairiam ainda mais. Não para os decotes, mas para certas gravatas... em pernas alheias.

Com todo o respeito, oh com certeza!

gimbras.nofuturo.com disse...

(Caramba, como tu escreves bem, mulher!! Sou fã.)

Do estilo, o que me tenho apercebido - e devemos ter a mesma idade aproximadamente - é de três simples coisinhas.

1ª - quando somos putos e ingénuos magoamo-nos muito quando entendemos que o mundo não é cor-de-rosa;

2ª - fechamo-nos, isolamo-nos, somos antipáticos com os outros porque desconfiamos de supostas boas intenções e criamos muros e regras, poços de merda onde nos enfiamos.

3ª - vivemos assim uns belos anos até que começamos a chegar a uma idade mais adulta, mais madura e nos apercebemos que o medo de errar/sofrer, é um erro ele próprio que nos impede de viver e arriscar. Topamos que a vida e a juventude não dura para sempre e, finalmente, a maior prova de maturidade é mandar às malvas certos coletes de força e começarmos a viver. Certo que de pés no chão, mas levando-nos a ultrapassar certos limites.

Se nos magoarmos, é dose. Mas, ao menos, já contávamos com isso e... sofrer é viver. Ficar de braços cruzados a ver a caravana passar é que nem pensar!

Boa atitude.

B. disse...

Nas férias também me aconteceu, estive rodeada de pessoas diferentes, pensamentos diferentes, outros pontos de vista... Mudei, cheguei a casa apaguei fotografias, apaguei numeros de telemovel...etc!
Voltei à minha rotina, à minha faculdade, à minha outra cidade e casa... voltei a lembrar-me de tudo, a cometer os mesmos erros, sabia de cor e salteado os numeros que tinha apagado, voltei a tentar contactar com pessoas que teimam em não me dizer nada...etc...
Enfim..
Parece que não estava disposta a mudar... :S
bjs*

Feiticeira disse...

Adorei o post. É mesmo assim. há momentos em que as coisas ficam claras, em que ficamos com o bom e deitamos fora o mau. estamos aqui para ser felizes!
um beijinho

Segredo Cor de Rosa disse...

E pronto. Eu já te tinha dito que era tua fã. Mas depois de ler isto, posso soltar um Foda-se. É verdade. És uma gaja e tanto. Assim mesmo é que é.
Revi-me nalgumas linhas e gostava também de voltar a ter a coragem que tive outrora. Há dias que ela espreita, mas há outros que se esconde bem lá no fundo.

Adorei estas palavras.
As imagens.
Mais uma vez te digo, és uma mulher e tanto.
Usas salto alto e vestidos que fazem parecer uma princesa.
Tens uma beleza rara e és um amor de amiga.
Que mais poderei eu dizer?

O que gostava de mudar na minha vida? Tanta coisa.
Vou fazer uma lista.
Quem sabe um dia me ensines a maquilhar e a usar um salto alto.
O que te parece?
ehehehehhehe

Um beijo enormeeeeeeeeeeeeee

Cindy disse...

Não há dúvida de que estarmos amarradas ao passado só dá cabo de nós, só nos angustia... principalmente merdas mal resolvidas!

Fizeste bem em te divertires, em aproveitares, porque eu sou apologista de que as coisas são para ser vividas e não deixar para depois!!

Beijocas

Lua Escondida* disse...

Fogo, parecia que estava meeesmoo a ver um filme!

E ainda bem que assim foi! Não que eu me agarre muito ao passado e que tenha muita coisa dentro de mim a borbulhar mas acho que ando a precisar de uma noite revelação, sim!

Um beijinhoo*

[adorei as fotos. e tu deves ser lindissima!]

Pipoca dos Saltos Altos disse...

@Gimbras.nofuturo.com,
Tens razão, depois de uns anos deixamo-nos de merdas. E sim, ver a vida a passar, mortiça, isso não...

@B.,
Inspira, expira, salta! Vá, arrisca.

@Feiticeira,
São aqueles momentos, esses, que nos atiram para o caminho onde sorriremos mais.

@Segredinho,
Estou corada. Quando ela, a coragem, espreitar, agarra-a, dá-lhe um abanão!!! Tu mereces, por tudo, por ti, pelos que gostam de ti, como eu.
Maquilhagem e saltos altos? Claro, quando quiseres, fazemos um workshop. Tu és bonita, não precisas de grandes produções. Beijinho, grande grande

Pipoca dos Saltos Altos disse...

@Cindy,
Agarrar o momento, vivê-lo, sem merdas

@Lua Escondida,
Tarás a tua, seja numa destas noites, tardes ou manhãs. Fica atenta
Tu és a pessoa mais importante da tua vida. (obrigada pelo elogio, ainda que exagerado da tua parte)
beijinhos

Reporter Da Vida disse...

Como é bom sair da nossa zona de segurança..

Pedro Vitorino disse...

adoro fazer o que fizeste...tipo decidir rumo...fazer um reset uma vez por ano pelo menos...;)

Anónimo disse...

Adorei o post.

Eu sou uma pessoa que penso,repenso e volto a pensar. E então já tive tantas "noites revelação", sei tão bem o que devia mudar. Mas o problema é que durante uns tempos até consigo... mas depois, lá volta tudo ao mesmo.
Tu consegues manter todas as alterações a que te propões?
É que se consegues ensina-me

Beijos
Margarida

Mnemósine disse...

Adorei o post!
Também ando a precisar de mudar a matriz da minha vida. Pode ser que a minha revelação não demore.

Ar disse...

I went to the woods because I wished to live deliberately, to front only the essential facts of life, and see if I could not learn what it had to teach, and not, when I came to die, discover that I had not lived. I did not wish to live what was not life, living is so dear; nor did I wish to practise resignation, unless it was quite necessary. I wanted to live deep and suck out all the marrow of life, to live so sturdily and Spartan-like as to put to rout all that was not life, to cut a broad swath and shave close, to drive life into a corner, and reduce it to its lowest terms, and, if it proved to be mean, why then to get the whole and genuine meanness of it, and publish its meanness to the world; or if it were sublime, to know it by experience, and be able to give a true account of it in my next excursion. For most men, it appears to me, are in a strange uncertainty about it, whether it is of the devil or of God, and have somewhat hastily concluded that it is the chief end of man here to "glorify God and enjoy him forever."

Hoje, por acaso, revisitei esta passagem, encontrei este blog e vou começar aulas de Tango em Janeiro.

Achei engraçado. :)

Ar disse...

I went to the woods because I wished to live deliberately, to front only the essential facts of life, and see if I could not learn what it had to teach, and not, when I came to die, discover that I had not lived. I did not wish to live what was not life, living is so dear; nor did I wish to practise resignation, unless it was quite necessary. I wanted to live deep and suck out all the marrow of life, to live so sturdily and Spartan-like as to put to rout all that was not life, to cut a broad swath and shave close, to drive life into a corner, and reduce it to its lowest terms, and, if it proved to be mean, why then to get the whole and genuine meanness of it, and publish its meanness to the world; or if it were sublime, to know it by experience, and be able to give a true account of it in my next excursion. For most men, it appears to me, are in a strange uncertainty about it, whether it is of the devil or of God, and have somewhat hastily concluded that it is the chief end of man here to "glorify God and enjoy him forever."

Hoje revisitei esta passagem, encontrei este blog e tb tinha decidido começar aulas de Tango em Janeiro.

Achei engraçado. :)

Joaninha disse...

Que giro...sabes este fim de semana decidi precisamente o mesmo, tive uma iluminação qualquer a caminho de casa...mas eu foi mais aoc contrario, estava na discoteca com as amigas e de repente bateu-me qualquer coisa e limitei-me a dizer "até amanhã" e fui embora...demorei 3 minutos a chegar a casa (sim moro na zona previligiada de Faro lol)e foi neste 3 minutos que se fez plim! Estou realmente aqui fascinada depois de ler este post e da coincidência:)
Fico feliz por ti e por mim lol

Beijinho grande**

Summer disse...

CLAP CLAP CLAP!!!

Eu acabei de mudar! Ontem! No dia dos meus anos q é para a coisa ser mais sentida =)! (agora só queria mudar mesmo a minha conta bancária...mas até nisso já decidi trabalhar lol)

Beijo P. força nessa mudança****

Miguel disse...

Gostei da gravata, ainda que não seja apreciador.

Acho que ficam muito melhor numa bela perna que em qualquer pescoço...

O texto... muito bom.

Espero que transforme a vida da maneira que desejas...

:)

Kami disse...

Fico mesmo contente que tenhas tido essa revelação. Pelo que ia lendo aqui acho que estavas mesmo a precisar. Agora é só stick to it! Beijo!

eu... disse...

Fiz essa mesma viagem com esse mesmo espírito e muita coisa mudou também.
Percebo perfeitamente...
Fazer fretes nunca, sorrisos amarelos nunca! Bola para a frente!

Estrelinha disse...

É por isso que gosto tanto de te ler...
Tens coragem de quebrar as regras e ser feliz!
Um beijinho

joana disse...

È a forma de viajar que mais gosto! Já fiz 6 entre os 20 e os 30 anos. Saldo:Amigas, um namorado num pela Grécia, Amigo colorido noutro, muitas noitadas de a aperecer ao pequeno almoço ainda de vestido de noite, muitas excurções, muitos mergulhos, uns quilos a mais,lol, muitas histórias para contar ...de tudo um pouco a bordo.ADORO!Espero zarpar em breve outra vez!

Saltos Altos Vermelhos disse...

olha ando a ficar senil!!! não é que eu ontem li o teu post, pensei no comentário e não o escrevi? LOLOLOLOL
Pipoca, eu também tenho uma cabeça pequenaaaaaaaaaa!!! Mas arranjo sempre, olha já comprei uns tantos na Aldo, na H&M e em budapeste também arranjei uns à medida! lol procura que encontras!

mau feitio disse...

Este post é mto inspirador.

Beijinhos

joana disse...

PS- O mais importante é sem dúvida esse libertar da mente, de amarras.O isolamento, saída da rotina ajuda a reflexão (então em alto mar ainda mais inspirador).
PS2-Pipoca é muito gira!

Bunyssa* disse...

Muito bom o teu post. :)
Às vezes esses momentos de revelação são o ponto de viragem para reencontrarmos o nosso eu, que muitas vezes fica preso lá "atrás" e nos impede de aproveitar o "agora". :)

Devem ter sido umas férias fantásticas. Pelo que já nos contaste e pelas fotos que já partilhaste connosco...

Beijinho*

Rosa Cueca disse...

Gostava de deixar-me de merdas, de papas na língua, de ser capaz de ir atrás do que quero, quando quero.
De mostrar que comigo ninguém faz farinha, que sou inteligente e sei quando me tentam manipular.

Gostava de ter uma noite de grandes e pequenas revelações, em que quando chegasse ao fim eu sentisse: agora sim, sou eu.

pfa disse...

Ainda não tive a minha noite revelação. Mas tive o meu ano revelação que está agora a chegar ao fim. Já não tenho os mesmos planos os mesmos sonhos. As mesmas ideias de como a vida perfeita deveria ser. Ficaram os desejos de viver de amar, de conhecer, sem regras só com princípios. De me dar a todos e receber de todos, mas sem pensar em recompensas nem validações, só em criar momentos e ligações. E assim tentar viver a vida e não construí-la e assim viver a felicidade em vez de a tentar alcançá-la. Enfim viver...

Ultima Thule disse...

uhm... o que mudava na minha vida...

Por vezes gostava de não planear tanto... conseguir ser doido ao ponto de ir fazer uma viagem completamente aleatória...

katie. disse...

Quem sabe um dia destes não tenho também umas revelações...
(é melhor apostar num dia daqueles, porque não me parece que esteja perto de acontecer...)