segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Da minha Terrinha

Quem cresceu fora de uma grande cidade sabe que há expressões, comportamentos, cusquices, tradições e afins que só se encontram nas terrinhas. Na terrinha toda a gente sabe o teu nome e de quem és filha.
Na terrinha toda gente sabe se bebes, se fumas, se namoras, onde trabalhas. E a cada vez que passas a pé um(a) velhote(a) qualquer vai atirar (e eles acham que falam baixo) qualquer comentários sobre ti: "olha, vai ali a Caniggia". "É a filha da X, não é? Está uma mulher!". "Ela de certeza que ganha bem, vê-se pelas roupas." E quando não sabem alguma coisa, inventam e acreditam nisso, passa a verdade e sem margem para dúvidas.
Estive quatro dias seguidos na terrinha dos meus pais, um record que não batia há anos. E o que trago de lá são mesmo umas boas gargalhadas e estórias engraçadas.
A FESTA LÁ DA TERRA
Bailarico com músicas de Tony Carreira e associados, pipocas, minis, algodão doce, velhotas a olhar para mim de alto a baixo, mãe e pai mortos de riso por me verem a dançar músicas pimba. Rifas, romarias, reencontro com pessoas que não via há sei lá quanto tempo. Pipopos manhosos, muito manhosos. Perguntas disparatadas de pessoas que mal conheço mas a quem a minha vida parece interessar muito. Emigrantes que estão em França há um ano e já não sabem falar português. Mais gargalhas da mãe e do pai por verem o meu jogo de cintura a esquivar-me das velhotas chatas e dos rapazes dos piropos manhosos.
Ò Pipoca, mas afinal o que são piropos manhosos?, perguntam vocês..
"As tuas pernas não acabam". "Contigo era mesmo para casar". "Estás livre?". "Páh, conheço-te desde sempre e cada vez te acho mais bonita, é que ainda por cima tu cheiras sempre bem". "Vi-te numa revista, tu és poderosa!". "Soubesse eu que ias ser este mulherão e tinha ficado contigo desde o ciclo, na altura em que gostavas de mim e eu não te ligava grande coisa. É que na altura ainda não usavas saltos altos". (e outros que tenho vergonha de escrever aqui, são mesmo mauzinhos).
A VERGONHA NO BAR IN DA CIDADE
Quinta-feira à noite, bar na cidade, música ao vivo, ambiente mais selecto, saída com a V e a M. A meio da noite começo a sentir o peso de olhares em cima de mim e um dedo a apontar na minha direcção. "Sim, é aquela rapariga ali. Ela vem cá muitas vezes". Mentalmente grito um WTF. Olho à volta e vejo o dono do bar com uma revista aberta na mão a apontar para mim. E fez isto em várias mesas do bar. Ia morrendo de vergonha, baixei os olhos e decidi que precisava de um copo para aguentar aquilo. A V e a M riam-se a bandeiras despregadas. Pondero pedir à VIP e à TV7Dias uma indemnização por danos morais. Uma fotografia do tamanho de um selo e tanto alarido, isto só mesmo nas terrinhas.
DOS PASSEIOS E DOS GELADOS DE ÁGUA
Foi das melhores coisas nestes dias, e já tinha saudades. Amigos, passeios e gelados de água (daqueles com bolacha). E os passeios de bicicleta? E andar a correr entre cães e gatos quintal fora? E aguentar uma tarde inteira o pai a ouvir Elvis a altos berros? E a mãe que nos arrasta sempre que vai a casa de alguma vizinha? E a avó que se pendura no nosso pescoço horas e horas, sem largar e que como já não consegue lembrar-se à primeira do nosso nome nos chama afincadamente de "amiguita" e acredita que é mesmo o nosso nome? E as velhotas que nos dão mãos cheias de rebuçados por acharem que ainda temos idade para sermos tratadas por garotinhas? E as que nos tentam impingir os netos? E as que nos reprovam com as expressões: "Com a tua idade já tinha dois filhos". Com a tua idade já te devias ter casado". "Já és das poucas solteiras, olha que depois ninguém te pega". "Tantos rapazes cá na terra e vocês só gostam dos meninos das cidades". "E filhos?"
DAS EXPRESSÕES (e estas fazem-me sempre rir, por muito que as ouça, e parece que há um fetiche com raios)
"Alma do Diabo!"
"Não venha um raio que te parta"
"Raios te abrasassem!"
"Raios partam a miúda!"
"Cachopos de um raio!"

E é por isto tudo, com coisas boas e outras nem tanto, que gosto da minha terrinha. E os papás ficaram todos contentes de me terem lá estes dias, e eu também.

20 comentários:

Manuela disse...

PSA, o que eu já me ri, com o teu relato :))
Eu que sou uma aldeã!

mãe pimpolha disse...

Tu deves mesmo viver aqui perto, essas expressões são todas conhecidas.
Eras tu que conhecias os the peorth, não eras?
Beijocas

Pipoca dos Saltos Altos disse...

Sim, somos vizinhas :)
Andei com o Pinto e com o Tó dos The Peorth na escola.

Sofia disse...

Hahaha que giro... as terrinhas são sempre agradáveis de visitar... mas num limite de uma vez por ano, caso contrário a nossa sanidade mental vê-se afectada... ;)

Capitão Microondas disse...

Caniggia?! Eheh

Salvador disse...

Uma boa tarde, Pipoca...

Revejo-me em parte do texto, uma vez que moro numa dessas terrinhas, pequenitas, onde todos nos conhecemos, e onde quase nada acontece.
E quando acontece, 'anda-se' nas bocas do mundo até acontecer outra coisa a outra pessoa.
Mas quando precisamos de algo, poucos são os que não ajudam.
Virtudes e defeitos de uma comunidade pequena...))
Mas digo-lhe... conheço parte do Mundo, vivi, numa espécie de part-time, em Lx, e não me imagino a viver noutro local.

A. disse...

Pois que também eu vim passar uns 4 ou 5 dias à terra (e ainda cá estou!grande maluca!. Já não vinha às festas há uns 5 anos. E agora revejo-me neste teu post. Nas expressões, nas situações e até na alegria dos pais por nos terem por cá! ;)
Definitivamente, devemos ser vizinhas... já tivemos esta conversa noutro lado e está cada vez mais visto que sim! Viva as minis Sagres!

Mak, o Mau disse...

Isso tem muito nível. Isso para quem é rebento da metrópole só tem uma parca equivalência, quando és de um bairro minimamente castiço ou mitra, como é o meu caso.

Só que é um exemplo à escala.

Ana disse...

Eu vivi até aos 11 anos numa terra assim. :) E ainda hoje as nossas vidas são faladas. Talvez porque os meus tios e avó continuem a morar na mesma casa...

É uma cusquice sem fim, sabe-se tudo!!!

disse...

Pipoca, o que adorei e me diverti com este teu post... Também eu tenho raizes numa terrinha, por isso sei perfeitamente daquilo que falas :) é mesmo assim, quando apareces é como se fosses qualquer coisa de intocável, ainda p'ra mais se estiveres a viver na "cidade grande"! É engraçado!
um beijo,

Andie disse...

Isto podia ter sido escrito por mim. Na minha aldeia é exactamente a mesma coisa. E quando querem tirar nabos da púcara, do genero: "Tu não és a filha de X?" e afinal nao sés, e eles andam e andam até dizeres o que eles querem =P E sim, inventam e dps ja é verdade e toda a aldeia fica a saber que namoras com o Zé Ambrosio, e tu nem sabes quem é o o gajo, apenas lhe disseste educadamente "olá", quando entras-te no café -.-'

S* disse...

É uma aldeia portuguesa, com toda a certeza. :P

Lilith disse...

Eu também vivo numa aldeia e realmente nada disto se perde, eu serei sempre a filha do ******** (não digo que é de razão inexplicável). Há uns tempos ia eu por lá fora quando me cruzo com o tio de um amigo meu (que não me conhecia como tal) e que se pôs a desfiar, durante uma meia hora (porque eu me livrei dele!), assunto que em tudo se assemelha ao que descreveste. Mas enfim, só este ambiente me faz depois desfrutar tanto dos passeios na cidade :D

Maria. disse...

Sei muito bem o que isso é. Eu sou da terrinha.

Suricat disse...

Pipoca, juro que no outro dia disse à cueca maria para comprar a dita da revista para te ver!

Estavas bem ;)

Tinana disse...

Que engraçado... Eu encontro-me também neste momento na "santa terrinha" e vou no 3º dia, dos 4 que aqui vou passar, coisa que também já não acontecia há muito tempo... E enfim, identifico-me em tudo o que relataste... É mesmo assim :)

Petra Pink disse...

hehehhheheh essa da revista ta de mais!
Mas nas terrinhas é assim!
Precisam disso pipoca!
Nós não gostamos muito de algumas, mas... la nos acontecem!
Eu adoro ir la cima a trás-os-montes, a vila Flor, adoro aquilo, vivi la até aos 22 anos, e quando visito parece que não passou tempo nenhum!
é maravilhoso crescer fora da grande cidade! ganha-se imenso só em crescer ao ar livre.
E nada substitui as cusquices e histórias do outro mundo das velhotas!
E quando la chego e dizem... Olha a tua pronuncia trasmontana não se perdeu nada!
Isso enche-me de orgulho!
beijo

Marlucinha disse...

Eu continuo sem perceber como e que as pessoas sem "terra" conseguem ser 100% felizes! é que é tão bom... (apesar de lá ir apenas 2 ou 3 vezes por ano e a correr)!

Jibóia Cega disse...

Viva Alguidares de Baixo! ;)

Menina do Vestido Verde disse...

100% correspondente à verdade! O melhor das terrinhas, és vista com um rapaz e já namoras com ele. O problema é qundo chegas à conclusão que tens pelo menos cerca de 6 namorados.
Beijo