Um amigo perguntou-me como se pode fazer restart ao coração. Não lhe soube responder, que sei eu do coração? Acho que não se pode, não há uma forma, um botão. Deixa-se lá tudo o que vivemos, dores incluídas, e espera-se que as coisas se transformem, as memórias se percam e o azedo na boca mude de sabor para qualquer outro paladar mais agradável.
Vivem-se as dores e cresce-se com elas. Aprendem-se lições e espera-se que o organismo cuspa o sabor tóxico que nos ficou preso à garganta. Atenuam-se as mágoas com calmantes (amigos) e espera-se que o tempo faça o efeito que queremos: que provoque o esquecimento.
Deixam-se as lágrimas cair para nos lavar a alma, e elas vão cair várias vezes, e olha-se para o céu para se evitar o escuro da espiral que parece ser o sítio onde queremos estar.
Rasgam-se cartas, postais e fotografias. Deitam-se fora presentes. Muda-se de rotina. Muda-se de cenário. Muda-se de sítios. E o coração lá por dentro, enquanto as coisas por fora vão mudando, vai sofrendo mudanças também. Até que um dia, depois de termos chorado 476 dias, ou outro número qualquer, e nos termos massacrado com o fracasso que se agarra à nossa mente, acordamos e damos um sorriso. Um que seja provocado pelo sol, pela chuva ou por outra coisa, isso agora não interessa nada. Um que seja retribuído a um estranho, a um amigo, a uma criança. E um dia, quando menos esperarmos, se tivermos sorte e a audácia de o aceitar, um sorriso que seja provocado por uma nova pessoa que nos entre vida adentro.
Mesmo com o medo de sabermos que corremos o risco de passar por todo o processo de carpir dores novamente, mais 476 dias, segundo a Pólo Norte.
E quando olharmos para trás, num dia já distante, podemos dar-nos ao luxo de nos presentear com a sentença: agora sei porque é que não resultou com ninguém antes. Um dia...se tivermos essa sorte.
É que restart é uma coisa que não se pode fazer. Nem sequer rewind.
E como não sei responder à pergunta, espero que o teu sorriso não tarde a chegar. E que ao contrário de mim, não demores mais do que 476 dias para esquecer e 725, ou outro número qualquer, para dares por ti a oferecer um sorriso a um estranho, sem medo de passar por tudo outra vez. E teremos sempre medo, eu sei.
"No one can find the rewind button, girl.
So cradle your head in your hands
And breathe..."
100 Photos Of Europe (2026)
Há 15 horas

15 comentários:
Tinha acabado de pensar nesta música :) *
O tempo não cicatriza totalmente, mas é sem dúvida o melhor cicatrizante.
Junto com a motivação e a força de vontade....
contudo é importante que ambas estejam aliadas ao tempo. bjos
que texto maravilhoso.
acho que é msm assim. não é possivel fazer um restart. temos é de encontrar a forma de dar a volta por cima. e ser feliz exige e vale o sacrificio.
espero que o teu amigo consiga. :)
Não há, de facto, restart para o coração. E se marcou o suficiente para desejarmos um dia fazer esse restart, é certo que ficará para sempre guardado na motherboard. Mas uma vez aprendida a lição não nos vai fazer a minima "comichão" saber que lá está armazenado. Faz parte da nossa história e ainda bem. Há gente que não as tem e é bem mais triste viver com tanto espaço livre na dita.
Eu cometi o erro de reproduzir a música primeiro e depois ler o texto (ora portanto, ao som da música). Deixa lagriminha no canto do olho mulher, adorei :)
Muito boa esta alternativa ao restart - escrito assim parece tão fácil quanto carregar num botão...
;)
Na minha opinião o coração não precisa de restart. o que precisa de restart é a nossa mente, a necessidade que temos de associar ao amor (e medição do seu sucesso) a retribuição, quando a capacidade de amar per si (com esforço é certo), e sua manifestação, é algo que nos deve encher de orgulho e, por isso, permitir com o tempo, como dizes, seguir em frente. Quem ama sem correspondência nada perde objectivamente. Pois nada havia a perder. E foi curioso encontrar este texto quando acabo de redigir o um texto relacionado com a coisa para amanhã, com um pouco desta perspectiva que aceito "diferente" sobre o amor não correspondido (ou maltratado, para o qual a receita é igual).
PS - não concordo absolutamente nada com rasgar fotografias, deitar fora presentes, etc, mas cada pessoa é uma pessoa. O que eu vivi é importante pelo que eu senti e representou para mim, não pela forma como a outra pessoa correspondeu ou sequer como se comportou comigo. As coisas podem ir para um cofre do Banif, mas para o lixo não vão certamente.
Era bom termos o poder de fazer restart quando assim fosse necessário. Mas a verdade é que embora na altura não seja agradavél todas essas situações nos fazem mais fortes.
Tal como disse o capitão microondas também não concordo nada em deitar fora lembranças, mas sim guarda-las no fundo de um armário até a mágoa passar.
Mas não somos todos iguais!
Beijos
O tempo e os amigos. Acho que ainda é o melhor que conseguimos.
*
Para fazer restart ao coração basta proceder ao entalamento do São Bernardo em novo, fresco e agradável vasilhame. Tenho dito.
encontrei o teu blog numa revista, já não me lembro do nome . mas achei que era interessante , pelo menos pela forma como o descreviam :D
sigo-te * adorei!
Tudo a seu tempo e com mta força de vontade se ultrapassa :)
Adorei o teu texto, e por ser tão verdade, caiu cá umas lagrimazitas ;)
A minha opinião no meu burgo.
O tempo não cura, mas ameniza a dor... Todos sabemos disso, a partir do momento em que sofremos o primeiro grande desgosto.
Querida roubei o texto e coloquei no meu blogue devidamente identificado! Espero que não importes. Adorei mesmo, as coisas são mesmo assim...
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