terça-feira, 5 de junho de 2012

Um texto poeirento, escrito há demasiado tempo, que volta e meia me faz sentido.

Nos olhos como a um espelho

Disse-lhe uma vez adoro-te. Soltou-se a palavra e não havia vento para a levar para longe, ficou ali a pairar perto do olhar dele. Como um murmúrio que deixa eco, a palavra teve um peso egoísta. Não por ter sido solta mesmo ali, perto do olhar do rapaz, mas porque se soltou mal se construiu nos lábios da rapariga. Já em casa, no silêncio, enquanto viajava pelas flashes dessa noite, entre travos de um cigarro pensativo, acanhados, os travos e a rapariga, perguntou-se em silêncio de que forma foi a palavra ouvida, ainda que entre ecos, pelo rapaz. Depois de decidir não dar mais peso à palavra, até porque "palavras leva-as o vento".  Mas não houve vento quando a palavra se soltou o que fez com que a rapariga sentisse, por instantes, alguma inquietude. Era o passado, os episódios menos brilhantes, as estórias lacrimosas que volta e meia teimam em não deixar desatar nós mesmo quando as amarras já não têm força para prender. Imagens tremidas que o tempo, após ter lutado contra ele, já não deixa focar. Ignorou-os, apagou-os e desatou nós com a mesma força que têm mil beijos à chuva. No espelho focou a custo a sua própria imagem. Ficou a olhar para ela como se o tempo tivesse parado para que ela tivesse a oportunidade de a definir com qualidade fotográfica para a registar de seguida. No fim perguntou-se baixinho: Voltavas a dizer-lhe adoro-te?. Sorriu e assumiu que provavelmente sim. Tudo isto porque afinal ela é apenas uma rapariga, que gosta de um rapaz.

4 comentários:

S* disse...

As palavras são difíceis de verbalizar... mas só para quem valoriza o suficiente os sentimentos. Eu precisei de meio ano para começar a gritar aos sete ventos que o amo.

Gosto deste teu registo. Ficou lindo.

Xerazade disse...

Muito bom!

Ventania disse...

Já te disse que estás no meu pódio de escritores preferidos na blogosfera? Desde sempre, aliás.

Beijinho, miúda.

Anónimo disse...

Oi, meu nome é Daniel Berman e eu sou um criador de séries de TV, produtor / diretor, DP, fotógrafo, editor e fundador dos Prémios móvel de fotos.
Gostar de ler o seu post! Continue fazendo o bem!
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